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    January 31

    A Mensagem

    Um amigo nosso, comandante da VASP, conta-me a estranha mensagem recebida por um piloto americano durante uma aterrissagem.

    O avião da companhia norte-americana sobrevoava a Bahia, a caminho do Rio, quando um defeito no motor obrigou o piloto a providenciar uma aterrissagem no aeroporto mais próximo possível.

    Na Bahia, justamente na pequena cidade de Barreiras, existe uma pista de emergência (se é que se pode chamar aquilo de pista) para os aviões das linhas internacionais. Raramente é usada, mas era a mais próxima da rota do avião. Assim, o piloto não teve dúvidas. A situação dele estava muito mais pra urubu do que pra colibri. 0 negócio era mesmo se mandar para Barreiras.

    Pediu pouso durante certo tempo, dirigindo-se à Rádio local em inglês. A resposta demorou um pouco, mas acabou vindo. Alguém, com forte sotaque nordestino, falando um inglês arrevesado e misturado com palavras em português, respondia que estava ouvindo e aconselhava o comandante a procurar outro local para aterrissagem.

    Há dias estava chovendo em Barreiras e a pista se achava em péssimo estado.

    O piloto, sem outra alternativa, insistiu em pousar assim mesmo, e tornou a pedir instruções, ouvindo-se lá a voz a dizer que estava bem, mas que não se responsabilizava pelo que desse e viesse.

    Acontece porém que isso foi dito com outras palavras, ainda num misto de português e inglês. Assim:

    — Ok. You land. But se der bode, I'il take my body out.

    (Stanislaw Ponte Preta)

    A melhor da turma

    Logo que passei pelo portão do colégio fui atropelada pela Anália, que era a mais estressadinha da turma. Ela me segurou pelo braço e parecia desesperada. Suas pupilas estavam dilatadas e os olhos pareciam querer saltar das órbitas, de tão esbugalhados. Mal pude entender quando ela me perguntou, a voz saindo junto com meio litro de baba, que ela costumava espelir abundantemente quando estava muito nervosa:

    - Estudou pra prova?

    Prova, que prova? - pensei eu. E se a Anália estava nervosíssima eu estava apavorada quando balbuciei:

    - Não estou sabendo de prova nenhuma.

    - A prova bimestral de matemática!

    Aquilo foi como um bombardeio em meu estômago, que se contraiu dolorosamente sobre o parco desjejum que eu tomara naquela manhã. Começaram a tremer-me as pernas, os braços, os dentes se chocavam uns nos outros e eu mal podia conter o pavor. Fui obrigada a confessar às colegas aflitas que não poderia ajudá-las com meus escassos conhecimentos dessa vez.

    A prova seria depois do recreio, de forma que entre uma aula e outra eu dava uma passada d'olhos no caderno, tentando decorar as complicadas fórmulas e entender aquelas famigeradas cifras. Quando o sinal que anunciava a temida aula tocou, nos entreolhamos assustadas antes de partir para a sala de aula, em silêncio e de cabeça baixa, como o boi quando vai para o matadouro.

    Na prova fiz o que pude e pelo que pude estudar até que estava fácil, mas eu não tinha muitas esperanças. Depois da aula comentamos, desalentadas, como tínhamos nos virado durante aquele amargo episódio. Fomos para casa, cabisbaixas, esperando o dia do anúncio das notas e do resultado do exame.

    Enfim chegou o temido dia, o professor (que era um dos raros que tínhamos, em sua grande e esmagadora maioria eram freiras) entrou com um calhamaço de provas corrigidas na mão e isso acabou com nossas esperanças de que ele tivesse sofrido um acidente ou que sua casa tivesse ardido em chamas - queimando assim aquela papelama inútil.

    Antes de dar as notas ele começou um discurso que ouvimos com o coração na mão e absolutamente paralisadas. Nossos piores temores se concretizavam:

    - Como o resultado das provas foi muito abaixo do esperado, vou entregar as provas e dar as notas em voz alta, porque aqui parece que ninguém estudou nada.

    E começou a ladainha:

    - Fulana... zero. Beltrana... zero.

    E assim ia chamando as alunas e a cada nome e a cada prova era um zero. Logo no princípio aquilo foi aterrador, mas à medida em que os zeros iam se sucedendo algumas alunas começaram a dar risinhos, já se conformando com a situação.

    Quando a pilha já estava quase acabando, chamou nossa "crânio" em matemática:

    - Agnes... quatro.

    Que horror, ela conseguiu um quatro - pensei. E então me dei conta que ainda não recebera minha prova, que seria a última. Mas antes nosso professor resolveu terminar o sermão que iniciara.

    - Eu ia anular essa prova, mas depois mudei de idéia por causa dessa prova - fez questão de deixar claro.

    Por causa dessa prova. E essa frase me assombrou os sonhos durante muitas noites de minha vida.

    Ainda estávamos lá, pasmas, sen entender nada quando ele então trovejou:

    - Zailda... dez.

    O caminho de minha carteira até a mesa do professor foi um dos caminhos mais difíceis que já percorri até hoje em minha vida. Enquanto avançava na direção da mão que me estendia com aquele maldito pedaço de papel, milhões de coisas passavam por minha cabeça. E principalmente que por eu ter tirado dez a prova não seria anulado, portanto minhas colegas todas ficariam com nota zero no boletim.

    Essa foi a primeira vez que um sucesso meu prejudicou outras pessoas, pessoas essas que eram minhas amigas, e que jamais entenderam como eu pude tirar um dez se disse que não sabia nada e portanto não as ajudei a estudar antes da aula. Se alguma delas estiver lendo essa crônica, espero que agora entenda e, mesmo que tardiamente, me perdoe.

    (por Zailda Mendes)

    January 30

    O espiritismo em nossa vida

    Hoje quando entrei no msn tive uma grata surpresa, encontrei com a Andrea, que trabalhou comigo no CCAA de Junqueirópolis. Foi um papo longo e agradável, ela me contou entre outras coisas que está esperando bebê pra julho.

    Conversa vai, conversa vem, entramos no papo de espiritismo e contei pra ela que tenho um blog só pra falar sobre esse assunto e que ia postar a história dela lá, se ela não se incomodasse. Ela, que é espírita, na hora foi ver o blog e aprovou a idéia. Portanto, ainda hoje sairá a publicação da história (se ela me enviar os dados que me prometeu por e-mail).

    Se você se interessa por esse assunto e acredita no espiritismo, dá uma passadinha lá:

     

    Uma luz na escuridão

    (por Zailda Mendes)

    January 07

    A justiça é cega?

    Promotor abate motoboy a tiros em frente ao parque do Ibirapuera em São Paulo. Alega que simplesmente reagiu a uma tentativa de assalto e de fato foram encontrados relógios roubados em poder da vítima. A família nega o envolvimento do motoboy em roubos, não tinha passagem pela polícia. Consta que um amigo com problemas no carro ligou pedindo ajuda, o motoboy foi em seu socorro e não voltou mais. Deixa mulher grávida e filho.
    Esse tipo de notícia infelizmente é cada dia mais comum em grandes cidades. O promotor diz que o rapaz "deu a entender" que estava armado. Esse "deu a entender" significa o que? Será que ele passou a mão na cintura? Quem sabe uma pulga ou o amigo em apuros teria ligado em seu celular pra saber se ele já estava chegando, ele põe a mão na cintura pra atender e é abatido a tiros?
    E o que teria passado na cabeça do promotor? Aqui são frequentes os casos de assalto em farol e normalmente os assaltantes usam motos por ser um meio de fuga rápido e eficaz. Seria o promotor culpado? Talvez, por mera precipitação, excesso de zelo, antes de ser alvejado ou depenado, resolveu ele mesmo reagir, já que contar com a segurança policial é algo que nem nos passa pela cabeça nessas horas.
    Não o desculpo, quem se atreve a portar uma arma deve ter no mínimo a consciência de que ela é letal, seu único fim é o extermínio. E um promotor tem a exata compreensão do que isso significa.
    Muitas vezes nos sentimos tentados a atirar antes e perguntar depois, mas nem sempre se pode perguntar depois. Esse, no caso, só se for numa sessão espírita. Mas com a violência num crescendo, a polícia despreparada e em muito menor número que os marginais, o cidadão se vê seduzido pela idéia de fazer justiça com as próprias mãos.
    Naturalmente que tirar a vida de outro ser humano, seja ele bandido ou não, é uma opção de quem há muito perdeu a crença na justiça dos homens, e isso causa admiração por se tratar de alguém  que dela participa ativamente, ou será que o promotor trabalha em prol da justiça mas não acredita nela? Será ele desses que pensam: "isso é bom, mas pros outros. Pra mim não serve..."?
    Quando o cidadão se arvora em advogado, juiz e executor dá-se o que se viu: uma vida jovem encerrada assim sem essa nem aquela, por engano ou omissão, e a vida humana é algo que não tem preço. Devemos parar um pouco e nos perguntar até quando nos eximiremos de cobrar efetivamente uma segurança que realmente nos proteja, uma sociedade mais justa com melhor divisão de rendas, igualdade de oportunidades, punição justa a quem a fez por merecer.
    A culpa por essa situação é de todos nós, que ano após ano reelegemos políticos incompetentes e omissos para cuidar de nossos interesses. E nossa integridade física é nosso interesse, nosso apenas e não deles - é o que posso concluir.
    De nada adianta nos arvorarmos em defensores de nós mesmos, nos armarmos e nos entrincheirarmos atrás de nossos altos muros, porque numa situação dessas ninguém está a salvo. Nem o motoboy nem o promotor.
     
    (por Zailda Mendes)